17/05/2015

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| deste tempo vazio na escola...


||| ... com o fecho do ano lectivo a chegar chegam as conclusões. as escolas vão parar para exames. os professores estão no limite. a avaliação externa e interna recomenda menos de tudo. depois de anos e anos a dizerem que era preciso mais de tudo para tudo ser melhor do que era. este ainda não é o tempo para balanço. é só um tempo que tem que passar. provará o que tiver que provar. porque os números e as estatísticas são lidas como e quando se quiser. o que importa são eles. os miúdos. e nós que só queremos ensinar. se falta cultura na escola, transborda esta de tempo vazio. tempo para cumprir todas as coisas. nada para ser mais do que feito. realizado. espera-se muito pouco além de uma nota. e no entanto, escondidos no meio de tudo há casos de sucesso. ou de resistência. e ainda bem. o que assusta é tudo o resto. a ideia que isto vai continuar. mesmo que todos consigam ver claramente a necessidade de uma transformação profunda. esta geração de miúdos terá o futuro que nunca pertenceu à escola mas dela deriva. estão habituados a cumprir. regras simples e com o máximo de uma linha em linguagem prática. o que quererá dizer isto no futuro, só esse tempo vazio que agora habita na escola poderá dizer...

14/05/2015

||| arte [im]perfeita...

giacometi

||| sentimento de mudança na escola...


||| ... às vezes, era só preciso fechar a porta da sala de aula depois dos miúdos saírem e sentar-me um pouco. às vezes era só preciso, sentar-me um pouco e colocar o olhar quieto por uns segundo, no quadro. às vezes, era só preciso lembrar-me, sentado e quieto, que sou professor. às vezes, era preciso só lembrar-me que sou professor e que o meu trabalho pode mudar o mundo deles. nem que seja porque sempre tentei ensinar a que pudessem ver o mundo mais claro. às vezes era só preciso isso...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...

 

||| música [im]perfeita...

||| poesia na sala de aula...


||| ... hoje apetecia-me dar uma aula. estar numa sala de aula. colocar uma folha em branco em cada lugar dos alunos. escrever no quadro o poema. esperar pelos miúdos entrarem. deixar ler o poema. apagar. escrever: e que mais é preciso? e mais nada...

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.


Carlos Drummond de Andrade

13/05/2015

||| arte [im]perfeita...

vieira da silva

||| sim, sobre o vídeos dos miúdos...


||| ... a primeira coisa que ouvi foi de vão existir averiguações. de tudo e de todos. depois os pais. depois os comentários [sempre muito e cada vez mais menos moderados]. chegam os "especialistas". e depois as culpas. destes, daqueles, nossas, da escola, da sociedade, de todos e de nenhum. depois o remate quase como provérbio: no nosso tempo também havia pancadaria. e mais umas pérolas assim. segue-se sempre o "fenómeno das redes sociais". e ser um vídeo. depois passa uma semana ou duas e lá foi. desaparece tudo do mapa. vão ficar os miúdos que bateram e o que levou pancada envoltos em processos e castigos. a revolta dará lugar ao silêncio e ao arrastar de tudo. tenho só uma coisa a dizer por mais bestial que possa parecer. o que se passou com estes miúdos é uma selvajaria. a culpa é nossa. pior é saber que ainda há pior. não há vídeos, mas há. pior. e os casos de violência na escola aumentam. quem disser o contrário não consegue olhar de frente a realidade. não sei o que pensar, principalmente para quem, como eu, que acha sempre qualquer acto de violência física ou psicológica de um ser humano sobre outro como um acto de barbárie. a escola tem nisto uma culpa ainda maior. perdeu o seu lugar de ser referência e exemplo. não se justifica um acto destes. é selvagem. simplesmente...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| em desacordo...


||| ... este espaço, apesar de hoje passar a ser obrigatório o uso do acordo ortográfico com alterações previstas e imprevistas, continuará a estar em desacordo com o uso do acordo e demais alterações. a razão é só uma. o seu autor aprendeu de outra forma e morrerá a escrever que pode parar para pensar com acentos e sons que usa ao falar. é só por preguiça. não há nenhum motivo válido para além deste. preguiça para aderir a mais uma estupidez. talvez um dia o estado mude. por enquanto, fica assim. e podem multar pelo não uso, se quiserem. ou colocar um pórtico em cada texto para pagamento de portagem pelo acto em desobediência. a liberdade, essa, é uma filha rebelde. felizmente...

12/05/2015

||| arte [im]perfeita...

monet

||| o mundo às partes...


||| ... a primeira coisa que mudava, se pudesse, era fazer regressar uma organização disciplinar que pudesse dar aos alunos uma noção de todo. eu percebo que é inconveniente. quando se ensina a ver o cenário todo tudo fica mais claro. pior do que isso, pode ensinar-se a ver e prever. por isso é melhor partir tudo em partes. dá mais trabalho e é mais difícil ver tudo quando assim se ensina. quando até, sem os velhos livros de ponto, não dá para saber em que "matéria" vai o colega que deu aulas nas horas antes. transformou-se tudo em serviços. as aulas são serviços. a cumprir. estanques. que nascem e morrem dentro da sua área de conhecimento como se nada tivessem de ligação com as outras. perdemos a noção humanista de conhecimento. perdemos a noção global da ciência. e eles, os miúdos, acham que as coisas da matemática nunca foram historicamente válidas ou inválidas. ou que as correntes literárias nada estão ligadas a noções científicas de leitura do mundo. esta cegueira terá um preço. tem já um preço. por muito que nos custe a ver a todos...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...