26/05/2015

||| arte [im]perfeita...

magritte

||| falar do espanto não é espantar...


||| ... durante muito tempo me perguntaram porque falava em espanto. em redescobrir o espanto. em dar aos miúdos coisas de espantar. respondi sempre que era esse o primeiro passo para a curiosidade. algo que nos absorve a observação e nos coloca a dúvida. o que está ali? aqui? como funciona? a escola sofreu de um mal maior. foi pensar que a pergunta que levava os miúdos a gostarem de aprender seria o porquê. o segredo está que os miúdos querem saber é o como. com o como chegamos ao porquê e não ao contrário. ao contrário temos o modelo que agora temos. o lugar do espanto está reservado à primeira das perguntas que fazemos sempre. como? é natural queremos saber isso. se esse for o mote da nossa aula, do nosso trabalho, despertar esse espanto para a pergunta, sabemos que abrimos caminhos a muitas outros que se seguem. perguntar é preciso. e urgente. mas a pergunta que nasça do espanto. antes da razão explicar o que quer que seja. a escola ganharia muito se alguém fosse capaz de colocar tudo noutra ordem...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a cultura é a única forma de dar liberdade...


||| ... que seja sempre livre o seu pensamento professor. aprendi o mundo consigo. no passado dia vinte e cinco, jubilou. foi meu professor de teoria da história. chama-se fernando catroga. jubilou. a ele devo o pensamento livre. pensar o fim do fim da história. as aulas onde o som das suas palavras eram mais do que simples correr de frases. era o movimento do pensamento. inventem-se sempre novas palavras. a meio do discurso infinito saltava uma nova. cosmogonia. que entendam os deuses e os homens de boa vontade. pedi-lhe um dia ajuda para estudar os movimentos anarquistas em portugal. disse-me: leia padre antónio vieira. estranhei. depois percebi. disse-me a frase que guardo em mim como certeza absoluta do que sou e do que sei. a cultura é a única forma de dar, verdadeiramente, liberdade a alguém. é iluminação. não volta ao estado de onde partiu. que as suas palavras e a sua visão da história sejam ensinadas. obrigado, deste seu eterno aluno, pelo caminhos que me deu para explorar...

23/05/2015

||| arte [im]perfeita...

júlio pomar

||| a cultura do exame...


||| ... os horários dos professores, por estes dias, são ocupados por "vigilâncias". horas e horas de andar de pé de cá para lá a vigiar quem faz exame. e ainda são só os primeiros. a escola chega a esta altura cercada pela ideia de que é preciso ser bom no exame para ser bom aluno. tudo, este ano, desembocou aqui. se não são os exames são as carradas de testes para ver. rever. classificar. ouvir os miúdos dizerem que precisam de uma boa nota para "arranjar emprego". aos doze ou menos anos. pressionados pelo universo de falta dos pais. ou de quem está com eles. era preciso explicar que tudo é relativo, nesse momento. não o valorizar mas integrar no percurso. testar não faz mal. tudo ser um teste é que sim. e cada miúdo ser uma nota ainda é pior. esta "cultura" de exames é imposta por nós, principalmente. porque o temor é maior do que a razão. e o cansaço é maior do que a oportunidade necessária de dizer não. que estudar não pode ser só "fazer um exame". ou "ter uma nota". que o conhecimento não é isto. nem é para ser usado só nisto. nem para transformar todos em "réplicas" uns dos outros como se todos, num portugal cada vez mais desigual, fossem, de facto, iguais. rever prioridades é preciso...

||| música [im]perfeita...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| aproximar a escola...


||| ... trocava, recentemente, umas ideias sobre esta coisa das mega escola e dos centros escolares. da escola estar perto do local onde as pessoas vivem ou nos centros onde há mais "oportunidades". se sou defensor dessa igualdade de oportunidades para todos os miúdos o mesmo não se passa com este desenraizamento que é feito e no que se está a transformar tudo isto. mal comparado, parecem um aviário as escolas de tamanho imenso. basta entrar numa. sem identidade que não seja a própria da escola que pode ser forte ou fraca consoante o seu projecto educativo, a verdade é que turmas com trinta miúdos, dos pequenos aos jovens, tornaram-se em lugares de vazio de razão e sentido. as oportunidade não surgem por haver uma biblioteca toda equipada ou uma sala com projector que não havia na escola pequena e de centro de aldeia ou terra. surge pela razão que se dá à escolarização. o seu sentido. para o que é pensada para servir. a proximidade com aqueles que acarinham a escola não tem preço. basta ver uma qualquer criança numa qualquer escola ainda por extinguir e ouvir: esta é a minha escola. coisa que raramente se ouve nos grandes espaços. "ando ali"... é mais isso...

18/05/2015

||| arte [im]perfeita...

orson welles

||| falhámos todos...


||| ... vi, a cena do polícia que bateu no pai e no avô. vi o rosto do filho mais novo. pensei imediatamente: falhámos todos. salvou-se quem tentou olhar pelo rapaz. assustou-me que ninguém tivesse segurado o polícia que cegamente batia. a autoridade não é dada. é merecida. a roupa é só roupa. o que importa é que tudo é um acto humano. falhámos todos. porque todos os personagens desta cena vivem em sociedade. na mesma em que eu vivo. porque, certamente, passaram pela escola. porque era só um momento desportivo. não importa a razão ou a troca de razões. importa a violência, imposta como linguagem principal antes de todas as outras. seja entre jovens, seja entre adultos, seja com ou sem autoridade. é a imposição da selvajaria. sobre a razão. as pessoas estão piores. e o país também. falhámos todos. só espero que aquele miúdo não esqueça o que viveu. e seja um dia um homem com imenso poder neste país. e nos guie no caminho que o unia ao seu pai. por quem chorou em desespero. que ele seja bom. e mude o mundo. resta essa esperança no dia em que falhámos todos...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| coisas [im]perfeitas...






||| do tempo das coisas certas na escola...


||| ... pensar nesta geração. houve quem tivesse entrado para a "escola" com meses. meses de vida. colocados no sistema. à sua guarda. porque os pais, esses, tinham trabalho para cumprir. não por opção. tantas vezes, sem opção, é esse o caminho. e depois tudo corre com a sorte ou não. desses meses ao décimo segundo ano. e diria mais: para alguns, até ao fim do ensino superior. frutos de um sistema que os deseja quietos e responsáveis. tudo ou quase tudo feito fora do seu tempo. a escolarização do pré-escolar é o maior atentado ao direito de ser criança que existe. do lado oposto, um ensino superior repetitivo e castrado no livre arbítrio e livre pensamento faz técnicos. produz, técnicos. no meio, a escola tornou-se uma prisão. um lugar onde se está como se podia estar em qualquer outro lugar. a educação passou a ser um luxo de quem pode ter outras regras de vida que não sejam aquelas dos horários para cumprir e dos sistemas que se acumulam uns sobre os outros. um luxo. de tempos a tempos surge uma notícia de uma escola inovadora. recentemente uma onde não havia computadores. achamos inovador tudo o que não seja ordinário. sistemático. cinzento. em modelo de "aviário". é um cenário estranho este. que fingimos não ver. mas vivemos, nas escolas...

17/05/2015

||| palavras [im]perfeitas...

saramago

||| não se ensina a falar na escola...


||| ... estava a ver a "entrevista" do jovem agredido na figueira da foz. para além de tudo o que me custou mais foi ouvir aquele rapaz a falar. sim, o acto em si. a expressão de uma emoção, a descrição de uma acto, o que quer que seja limita-se a um "foi tipo assim" que qualquer professor está habituado a ouvir nos corredores da escola. é verdadeiramente assustador o limite imposto pela falta de vocabulário que hoje há nesta geração de miúdos. o rapaz, até se conseguiu explicar. mas há aqueles que não o conseguem já. já ninguém pára para dizer: diz-se assim. isto tem a designação de. passou tudo a ser "tipo isto ou tipo aquilo". o próprio som das palavras é adulterado pela forma de expressão. sempre não justificada e atrapalhada. passámos do bué para outras coisas que não se compreendem. porque não são compostas. porque não explicam. porque são a ausência de significado em si mesmas. porque ninguém fala com eles, para eles, explicando. traduzindo a realidade. as coisas são só coisas e não possuem um nome. são coisas. como todas as outras coisas que existem. tipo. de um tipo. uma geração que não sabe falar não sabe pensar. não conhece o mundo. nem a si mesma. todo o limite da educação está aqui. no seu princípio e no seu fim. se não for, tudo isto, ultrapassado, o mundo perderá sentido. como se vê, pelos actos. ensinar a falar, ensinar as palavras, ensinar o sentido das coisas é preciso. é, mesmo, urgente...